O cravo verde e a ignorância...
Houve um tempo em que um cravo vermelho bastou para abrir o peito de um país.
Bastou uma flor, frágil e inteira, cravada no cano de uma arma, para desarmar o medo. Bastou a coragem anónima de mãos calejadas, de vozes antes proibidas, de lágrimas guardadas durante décadas, para rasgar a noite e deixar entrar a madrugada.
O vermelho nunca foi apenas cor.
Foi sangue sem vingança.
Foi ferida transformada em esperança.
Foi memória viva.
Foi Abril.
Por isso, ver cravos verdes erguidos na Sessão Solene que evoca o 25 de Abril não foi apenas um gesto deslocado. Foi um gesto carregado de uma simbologia que muitos ignoram — ou fingem ignorar.
O cravo verde não nasceu em Abril.
Nasceu no segredo.
Nasceu no código.
Nasceu na clandestinidade de outros combates.
Foi levado ao mundo por Oscar Wilde, no século XIX, como sinal velado de identidade, como murmúrio entre iguais, como resistência silenciosa de quem amava fora da norma e vivia à margem de uma sociedade que condenava o amor. Tornou-se símbolo de luta, de afirmação, de sexualidade reprimida e, mais tarde, de orgulho.
E essa luta merece respeito.
Toda a luta pela dignidade merece respeito.
Mas ali… naquele instante… naquele lugar… a sobreposição de símbolos não iluminou, confundiu.
Porque Abril tem a sua própria linguagem.
A sua própria flor.
A sua própria ferida.
A sua própria cor.
Misturar memórias sem consciência é apagar fronteiras sagradas. É transformar História em colagem. É trocar profundidade por impacto. É confundir homenagem com provocação.
O verde podia ser ponte.
Mas foi ruído.
Não trouxe esperança. Trouxe desorientação. Trouxe a evidência de um tempo em que se agitam símbolos sem se conhecer o peso que carregam.
Doeu porque a ignorância, quando se fantasia de virtude, entra de cabeça erguida onde devia entrar descalça.
Doeu porque Abril não é cenário.
Não é adereço.
Não é tendência.
Abril mora nas fotografias amareladas de quem já partiu. Mora no tremor da voz de quem ainda se lembra do antes. Mora no silêncio dos cárceres. Mora nos nomes sussurrados dos que tombaram. Mora na garganta apertada de quem sabe que a liberdade custou sangue, medo, exílio e ausência.
E naquele instante, os cravos verdes não floresceram.
Feriram.
Feriram a memória.
Feriram o símbolo.
Feriram o silêncio reverente que Abril exige.
Talvez o mais triste não tenha sido a cor.
Foi o vazio dentro dela.
Porque o vermelho de Abril não precisa de tradução, pulsa.
Não precisa de reinvenção, vive.
Não precisa de substituição, honra-se.
Abril floresceu em vermelho.
Sempre em vermelho.
Porque há flores que nascem da terra…
e há flores que nascem da coragem.

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