08/05/26

Teatro da Rainha

 



Este trabalho de criação teatral, com texto e direcção cénica de Fernando Mora Ramos, interpretação de Samuel Nhamatate (actor e dançarino moçambicano) e Fábio Costa (actor português) tem um nome: "Um estranho corpo dá ao palco". 

E desenvolve uma ficção cujo princípio de construção resulta de uma escrita refeita sobre os corpos dos intérpretes. Encarando o palco como um universo desconhecido, o estranho que nele dá à costa – um palco são todos os lugares, os imaginados e os reais, os concebíveis e os inconcebíveis – acorda de um pesadelo – vem a correr ininterruptamente a fugir da fome, da miséria e, pior que isso, da guerra. 

Acordando desse pesadelo – que é a realidade de todos os migrantes – naquele pedaço de palco, a sua dificuldade é reconhecer o espaço como um lugar de protecção. Não o lendo como aquilo que é, uma página física de escrever ficções através das acções entre os corpos, o estranho vai-se revelando como alguém, com uma história e um passado. 

O autor da ficção estará em cena também como uma espécie de habitante do palco, de ser único daquela ilha, ele é o ponto, o autor-ponto e vai narrando a história que o “estranho corpo” completa e vai revelando, por vezes intervindo. 

Reflexão sobre a condição migrante, esta performance é um libelo acusatório do modo como estas pessoas são tratadas, apenas como se fossem anónimos invasores do conforto dos instalados nos países do grande consumo. Simultaneamente, Um corpo estranho dá ao palco, é uma reflexão sobre os meios do teatro e os contrastes culturais entre os teatros e as culturas de países que, no fundo, se desconhecem. 

Deste modo o dançarino negro vai tentando perceber que estrangeiro é aquele lugar, na realidade um palco convencional com os seus dispositivos de funcionamento, bastidor, teia, etc., elementos que vai decifrando na sua movimentação de descoberta do lugar. 

Finalmente, esse modo de se mover para além das convenções ou ignorando-as, dará aos seus gestos um valor e intensidades primordiais.

Texto, fotos e vídeo: Teatro da Rainha









Em “Um Estranho Corpo dá ao Palco” o público começa por ser recebido e introduzido nesse lugar de todas as possibilidades que dá pelo nome de teatro. O teatro é também uma ilha. Subitamente, um corpo estranho dá ao palco, lugar estranho para a criatura que ali aporta como migrante a dar à costa. Que chão é aquele? 
O criador tenta dominar o fruto da sua criação, para a qual imagina passado, presente e futuro. Mas o que pode ele saber acerca daquela criatura com a qual, a dado momento, parece conflituar? Terá vida própria? Poderá ter vida própria? 
Esta é tanto uma reflexão sobre a criação teatral, como sobre a condição anónima do migrante, acerca do qual pouco mais nos é dado saber quotidianamente do que a tragédia dos números sem história nem identidade. Mas esta é também uma problematização do lugar de fala na criação artística, aqui desenvolvida através do Criador, o actor Fábio Costa, a tentar exercer o domínio criativo sobre a sua Criação, interpretada pelo actor e bailarino moçambicano Samuel Nhamatate. 

➡️ Samuel Nhamatate nasceu em Maputo, Moçambique. É actor e bailarino, graduado em Teatro pela Escola de comunicação e Artes da Universidade Eduardo Mondlane. Em 2006, por iniciativa do actor Dadivo José, fundou o grupo de teatro Ximbitana, que ganhou o 1º lugar num concurso de teatro em Maputo. Em 2009, juntamente com o grupo Ximbitana, fundou o grupo de danças tradicionais Nyembeti. No mesmo ano surgiu um grupo de canto coral designado Laulan`s chois. Em 2010, foi convidado a trabalhar num projecto como actor bailarino no Centro Cultural Franco Moçambicano. Desde então, tem participado em gravações de rádio novelas e séries de televisão, assim como na divulgação do curso de teatro na Universidade Eduardo Mondlane. Integrou o elenco de “Os meninos de Ninguém” (2015/16), do grupo Mutumbela Gogo, participando em festivais de teatro no Brasil, Alemanha, Itália e Portugal. Participou nos espectáculos “Chapa Cem My Love” e “As Mãos dos Pretos”, da mesma companhia. É membro, desde 2014, da associação pró-comunitária Khanyisa, como monitor de danças tradicionais e teatro comunitário. Em 2015, tornou-se monitor da cadeira de Movimento no curso de licenciatura em teatro da Universidade Eduardo Mondlane e, no ano seguinte, começou a dar aulas de teatro no colégio Educare e Nyamunda. Actualmente, é assistente estagiário da cadeira de movimento na Escola de Comunicação e Artes da Universidade Eduardo Mondlane.

➡️ José Braima Galissá, professor e mestre griot do Kora, nasceu na Guiné-Bissau em 1964 no seio de uma família da cultura Mandinga. É um dos mais nobres embaixadores do kora, harpa-alaúde característica nos movimentos musicais da África ocidental. Foi responsável e compositor do Ballet Nacional da Guiné-Bissau e professor na Escola Nacional de Música José Carlos Schwarz. Reside em Lisboa desde 1998, tendo realizado vários cursos para alunos da Escola Superior de Educação de Lisboa e Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa. Participou em trabalhos discográficos de João Afonso, Amélia Muge, Herménio Meno, Blasted Mechanism, Chac, Sara Tavares e outros artistas.




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8 Maio 2026

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